Golpes contra idosos: como proteger quem você cuida
Por Equipe CoCuidar · 25 de setembro de 2026

A ligação parece verdadeira. Quem fala sabe o nome completo da sua mãe, o número do benefício e até o nome do banco onde ela recebe. Diz que houve uma tentativa de fraude e que, para bloquear, é preciso confirmar um código que vai chegar por mensagem. Em três minutos, a conta está vazia — ou nasceu um empréstimo consignado que ninguém pediu. Golpes contra idosos deixaram de ser história de vizinho: viraram um dos crimes mais organizados do país. Este guia mostra os golpes mais comuns hoje, como blindar a vida financeira de quem você cuida sem tirar a autonomia dela e exatamente o que fazer nas primeiras horas depois de um golpe.
Golpes contra idosos: o tamanho do problema no Brasil
Os números explicam por que quase toda família tem um caso para contar. Segundo dados do Disque 100 citados em reportagens do Senado, os golpes contra idosos somaram mais de 72 mil casos em 2024. Um levantamento da Fundação Seade mostrou que, só no estado de São Paulo, 82% das pessoas com 60 anos ou mais já sofreram tentativas de golpes virtuais.
O crédito consignado — descontado direto do benefício — é o campeão de queixas. De acordo com a Febraban, quase 70% das reclamações sobre crédito consignado envolvem fraudes ou práticas abusivas. E o INSS registrou mais de 100 mil queixas de empréstimos não autorizados apenas em 2023.
Vale desmontar um preconceito: o idoso não cai em golpe por ser "ingênuo". Ele é alvo preferencial porque tem renda previsível todo mês — aposentadoria, pensão ou benefício por incapacidade —, crédito facilitado, tende a atender o telefone, foi educado a confiar em quem se apresenta como autoridade e, muitas vezes, mora sozinho — sem ninguém por perto para dizer "espera, isso parece estranho".
Os golpes mais comuns hoje
- Falso funcionário do banco ou do INSS: liga alertando sobre "movimentação suspeita" e pede senha, código do SMS ou que a pessoa faça uma transferência para uma "conta segura". Nenhum banco e nenhum órgão público faz isso;
- Empréstimo consignado não autorizado: aparece no extrato do benefício sem que ninguém tenha contratado, muitas vezes após uma ligação em que a vítima apenas "confirmou dados";
- Cartão de crédito consignado disfarçado de empréstimo: a pessoa acha que contratou um empréstimo comum e passa anos pagando apenas o mínimo de uma dívida que não acaba;
- Golpe do falso parente: mensagem de número desconhecido — "mãe, troquei de celular" — pedindo dinheiro com urgência;
- Golpe do falso advogado ou do prêmio: anuncia uma herança, uma indenização ou um sorteio que exige pagamento de taxa antecipada;
- Troca de cartão e "ajuda" no caixa eletrônico: alguém se oferece para ajudar, observa a senha e troca o cartão;
- Falso técnico ou falso funcionário de concessionária que entra na casa para "verificar" algo e furta documentos e cartões;
- Links falsos por SMS ou WhatsApp, imitando bancos, lojas e órgãos do governo;
- Golpe do motoboy: depois da ligação, alguém vai até a casa "buscar o cartão para destruição".
Como blindar sem tirar a autonomia
O erro clássico das famílias é tomar tudo da pessoa: cartão, senha, banco, decisões. Isso humilha, gera conflito e costuma levar o idoso a esconder o que acontece — justamente o oposto do que se quer. O caminho é proteger mantendo o controle com ele.
Medidas no banco e no INSS
- Bloquear empréstimo consignado: aposentados e pensionistas podem bloquear a contratação de consignado pelo aplicativo Meu INSS ou pela central 135. É a medida mais eficaz contra a fraude mais comum, e pode ser desbloqueada quando houver interesse real;
- Conferir o extrato de empréstimos do benefício uma vez por mês, junto com a pessoa — vale tanto para aposentadoria quanto para quem recebe o BPC/LOAS;
- Definir limites baixos para PIX, transferências e cartão, elevando apenas quando necessário;
- Ativar avisos por mensagem a cada movimentação, e combinar que um familiar também acompanhe;
- Usar o limite do PIX noturno e desativar funções que não são usadas;
- Cadastrar contas de confiança para transferências recorrentes.
Medidas no dia a dia
- Combine uma regra simples e única: "nenhuma decisão de dinheiro por telefone. Sempre desligo e ligo para a Fernanda". Regra fácil de lembrar vale mais do que uma lista de dez cuidados;
- Crie uma senha de família para pedidos urgentes de dinheiro entre parentes;
- Ensine a desligar sem culpa: "não sou obrigado a responder" precisa virar frase natural. Muitos idosos foram educados a achar grosseria desligar na cara de alguém, e o golpista explora isso;
- Ninguém entra em casa sem confirmação prévia com a empresa, pelo telefone oficial;
- Banco e órgão público nunca pedem senha, código de SMS ou transferência — repita isso até virar reflexo;
- Cuidado com o que se publica em redes sociais: fotos e informações ajudam o golpista a parecer conhecido;
- Documentos e cartões guardados em local combinado, e nunca com a senha anotada junto;
- Converse sobre golpes com naturalidade, contando casos reais, sem tom de sermão. Quem se sente vigiado esconde; quem se sente parceiro conta.
Se o golpe já aconteceu: o que fazer nas primeiras horas
- Acione o banco imediatamente e peça o registro da contestação, com número de protocolo. Em transferências recentes, existe mecanismo de bloqueio e devolução, e a rapidez é decisiva;
- Registre boletim de ocorrência — hoje possível pela internet na maioria dos estados. Ele é exigido em quase todas as contestações;
- No caso de empréstimo não autorizado, conteste pelo Meu INSS ou pelo 135, e formalize também junto ao banco que concedeu o crédito;
- Reclame nos canais oficiais: Procon, plataforma consumidor.gov.br e ouvidoria do banco. O registro público aumenta a pressão por solução;
- Troque senhas, revise dispositivos conectados às contas e desative o que não reconhecer;
- Guarde tudo: prints, números de protocolo, nomes de atendentes, datas e horários;
- Se houver dificuldade de resolução, procure a Defensoria Pública ou um advogado — fraudes bancárias têm ampla jurisprudência favorável ao consumidor;
- Não culpe a vítima. Vergonha é o que faz o idoso esconder o golpe e sofrer novos ataques. A frase certa é "isso acontece com muita gente, vamos resolver juntos".
Este conteúdo é informativo e não substitui orientação jurídica para o seu caso.
Erros comuns das famílias
- Tomar o cartão e o banco da pessoa, gerando revolta e ocultação;
- Achar que "com ela não acontece" — 82% dos idosos paulistas já foram alvo de tentativa;
- Não bloquear o consignado, sendo essa a fraude mais frequente e a mais fácil de prevenir;
- Deixar senha anotada na carteira ou salva no celular sem proteção;
- Repreender depois do golpe, quando o mais importante é agir rápido;
- Não conferir o extrato do benefício todo mês;
- Ignorar sinais de declínio cognitivo: dificuldade nova para lidar com dinheiro pode ser um dos primeiros sintomas de demência e exige avaliação — e mais proteção.
Checklist de proteção
- Consignado bloqueado no Meu INSS ou pelo 135;
- Extrato de empréstimos conferido mensalmente;
- Limites de PIX e cartão reduzidos;
- Avisos de movimentação ativados;
- Regra combinada: nada de decisão financeira por telefone;
- Senha de família para pedidos urgentes;
- Ninguém entra em casa sem confirmação;
- Senhas nunca anotadas junto com cartões;
- Telefones úteis salvos: banco, 135, Procon, delegacia;
- Conversa periódica sobre golpes novos, sem julgamento.
Perguntas frequentes
O banco é obrigado a devolver o dinheiro? Depende do caso. Fraudes em que o golpista contrata em nome da vítima costumam ser tratadas como falha na prestação do serviço, com boas chances de reversão. Já transferências feitas pela própria pessoa, induzida por engano, tendem a ser mais difíceis — o que reforça a importância de contestar rápido e registrar tudo.
Como bloquear o consignado? Pelo aplicativo ou site Meu INSS, na opção de bloqueio de empréstimos, ou pela central 135. O desbloqueio pode ser feito depois, se houver interesse real em contratar.
Idoso que mora sozinho corre mais risco? Sim, porque não tem com quem confirmar a história na hora. Combine contatos frequentes e uma pessoa de referência para consultar antes de qualquer decisão — os recursos estão em como monitorar idoso que mora sozinho.
E se ele tem demência e continua atendendo ligações? Nesses casos, a proteção precisa ser estrutural: bloqueio de consignado, limites mínimos, cartões sem função de crédito e acompanhamento próximo da movimentação. A família precisa assumir a barreira que a pessoa já não consegue manter.
Como o CoCuidar ajuda
Proteger financeiramente é, no fundo, um trabalho de rede: alguém precisa conferir o extrato, alguém precisa ser o contato de confiança, e todos precisam saber o que já foi combinado. O CoCuidar organiza essa rede:
- Rede de cuidado com papéis definidos: fica claro quem confere o benefício todo mês e quem é o contato para decisões financeiras;
- Tarefas recorrentes: "conferir extrato do INSS" entra na rotina mensal, com lembrete e confirmação de quem fez;
- Registro do que aconteceu: ligações suspeitas e tentativas de golpe ficam anotadas e visíveis para toda a família — padrões aparecem rápido;
- Documentos guardados no app: protocolos, boletim de ocorrência e comprovantes acessíveis a quem estiver resolvendo o problema.
Organize a rede de cuidado da sua família com o CoCuidar: conheça os planos.
Conclusão
Prevenir golpes contra idosos não é uma questão de esperteza individual — é de barreira combinada. Bloquear o consignado, reduzir limites, conferir o extrato todo mês e ter uma regra simples ("nenhuma decisão de dinheiro por telefone") resolve a maior parte dos casos. E, se o golpe acontecer, o que decide o resultado é a rapidez: banco, boletim de ocorrência, contestação e registro de tudo, nas primeiras horas. Sem culpa e sem vergonha — a responsabilidade é de quem aplica o golpe, nunca de quem foi enganado.
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